domingo, 27 de março de 2011

Nenhum a Menos*


  

No momento do planejamento, muitas exigências são feitas ao professor para que faça um detalhamento de suas atividades ao longo do ano. No papel fica definido tudo o que vai ser trabalhado com cada classe em função de conhecimentos e habilidades dos alunos. E na sala de aula, será que isso realmente funciona?


Todo aluno, em algum momento, apresenta dúvidas e isso faz parte do processo de aprendizagem. No entanto, alguns (ou muitos) não conseguem acompanhar o que é passado em sala de aula por apresentarem problemas psíquicos, familiares ou de aprendizagem. Um problema bastante comum na escola e que todo professor enfrenta durante o ano escolar. Então, como resolvê-lo? Como retomar os conceitos em classe sem deixar de lado aqueles com maiores dificuldades?


Estes alunos são os que mais precisam de nossa atenção, no entanto, como atendê-los individualmente numa sala com 35 a 40 alunos?  Ainda mais sem o apoio de SAP (Sala de Apoio Pedagógico)* e de SAAI (Sala de Apoio e Acompanhamento à Inclusão)**?


É preciso trabalhar uma série de modalidades escritas e orais (em Língua Portuguesa, antes denominados conteúdos), atender às Orientações Curriculares e atingir as metas da Unidade Escolar. Como fazer tudo isso com alunos que mal conseguem ler e escrever um texto?

Muitos especialistas na área da Educação falam em repensar as estratégias e atividades para eles. Será que usar novas atividades e estratégias diversificadas é o suficiente para sanar as suas dificuldades? Dizem ser necessário proporcionar outras formas de ensino para que todos aprendam o conteúdo. Mas será que todos conseguem aprender o conteúdo?


Um abraço


* Referência ao filme chinês "Nenhum a Menos" do diretor Zhang Yimou.

** Refere-se a ações de apoio pedagógico, integradas às ações educativas e inseridas na construção curricular da unidade educacional, serão realizadas em sala organizada em espaço próprio ou adaptado, denominada Sala de Apoio Pedagógico (SAP) - http://www.sinpeem.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=1616


***Oferecido pela Secretaria Municipal de Educação, a Sala de Apoio e Acompanhamento à Inclusão (SAAI) atende a alunos com necessidades educacionais que podem ou não se relacionar com deficiências, limitações ou disfunções no processo desenvolvimento, assim como com situação de superdotação ou altas habilidades. http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/pessoa_com_deficiencia/programas_e_servicos/educacao/index.php?p=12434



domingo, 27 de fevereiro de 2011

O peso do mundo nos ombros

Segundo a mitologia grega, Atlas era um Titã, maior que qualquer mortal, que por ter lutado contra os deuses foi obrigado por Zeus a sustentar nos ombros os Céus. Derrotado, Atlas se viu obrigado a sustentar tal peso eternamente.
O tempo todo, nós, professores, nos sentimos culpados por não conseguir realizar nosso trabalho. E assim como Atlas, ficamos sustentando o peso do mundo nos ombros.
Mas será que nós devemos carregar este peso nos ombros?
Diariamente, como verdadeiros algozes, nós apontamos o dedo para as nossas “falhas” e “fracassos” e nos sentimos culpados por não conseguir fazer os alunos aprenderem. Por não conseguirmos colher resultados positivos de nosso esforço. Por não conseguirmos atingir as metas estabelecidas pela SME. Por não terminarmos a tempo o planejamento do mês. Por não terminarmos o conteúdo a tempo. Por não estudarmos mais. Por não sairmos e nos divertirmos mais. Por não termos tempo para a família e os amigos. Por não trabalharmos menos. Por não ganharmos mais. Por nos sentirmos desmotivados e desanimados, etc.  
Até quando iremos suportar essa carga? Quando vamos aliviar o peso enorme que carregamos?
Um abraço

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Roteiro de viagem - 2011

Quando vamos fazer uma viagem, nós planejamos com antecedência como ela será: qual o roteiro de viagem, quantos dias iremos viajar, quanto gastar, onde ficar e que lugares visitar. É claro que sempre ocorrem alguns imprevistos; mas, na maioria das vezes, conseguimos ter uma viagem agradável.
Ao voltarmos para escola, nós costumamos planejar como será o ano letivo, as atividades e projetos a serem desenvolvidos ao longo do ano, selecionamos os conteúdos a serem trabalhados, os planos de aulas, etc. E assim como nas viagens, esperamos fazer uma viagem tranquila e contornar os imprevistos que surgirem no caminho.
As nossas expectativas aumentam à medida que se aproxima o início das aulas. E começar tudo de novo: conhecer novos alunos e reencontrar os antigos, preparar os trabalhos com as novas turmas e enfrentar os desafios que aparecerem durante o ano.
Não importa muito se esta é a primeira, décima ou milésima viagem, ficamos inseguros e cheios de expectativas, principalmente, no início do ano letivo.
Então, surgem algumas questões que nos tiram o sono:

O que esperar desta viagem? Eu já tenho estabelecido o meu destino? Ou estarei esperando os ventos guiarem minha embarcação?
O que eu quero de diferente neste ano?  Uma viagem tranquila e sossegada? Ou uma cheia de aventuras e emoções?
E a convivência com a tripulação? Será que conseguirei manter uma relação harmônica com os tripulantes durante a viagem?
O que gostaria de levar na minha mala de viagem?  O que gostaria de deixar em casa?
Depois de algumas viagens, será que aprendi com meus erros e acertos?




terça-feira, 2 de novembro de 2010

Educação para todos?



Após assistir algumas palestras no Congresso de Educação do Sinpeem e discutir com alguns professores a respeito dos temas abordados, pensei sobre o que representa Educação hoje.

Especialistas falam da importância do profissionalismo e dedicação dos professores, de um ambiente escolar propício a aprendizagem, do nível educacional das famílias, é claro que todos esses fatores contribuem para melhorar a qualidade e eficiência do Ensino, mas será que esses fatores são realmente levados em consideração em nossas escolas?
Segundo eles, cabe ao professor a responsabilidade de construção de um espaço em que seja possível o pleno desenvolvimento da aprendizagem, a formação do indivíduo, a criação de relações interpessoais positivas e um ensino de qualidade. Garantem que as mudanças precisam ser feitas com base na vontade e esforço dos professores. Será que o que realmente falta é vontade e esforço dos professores? Será que sozinhos, nós conseguimos dar conta de todos os problemas da educação?
Um dos estudiosos utilizou a Finlândia, como um exemplo de país a ser seguido (é o primeiro colocado em matemática, em compreensão da escrita e em cultura científica no Pisa* 2003 e segundo colocado em 2006). No entanto, não podemos esquecer que este país investe numa educação de qualidade e oferece aos professores condições favoráveis de trabalho como formação de pelo menos 5 anos (sem contar que a maioria tem mestrado), boa remuneração salarial, jornada inferior a 40 horas semanais, apoio de pais e da comunidade. Além disso, os professores possuem a valorização social e prestígio entre os seus compatriotas. Não é compreensível que estes profissionais estejam mais motivados a ensinar? Será que os professores no Brasil possuem as mesmas condições de trabalho?
Alguns especialistas na área de Educação enfatizam a importância da Escola pública e gratuita, porque ela se compromete com a aprendizagem de todos os alunos de forma efetiva e democrática. Rompe com a ideologia e prática de competição e exclusão, atendendo a todos sem discriminação.  É o que realmente acontece em nossas escolas?
Garantir a matrícula dos alunos não é garantia de uma Educação de Qualidade. Será que a Educação que oferecemos é mesmo para todos? Quais serão as condições para trabalhar com todos estes alunos? Como melhorar a qualidade e eficiência do aprendizado num governo que faz uso da demagogia, principalmente em campanha política?
Acreditamos que temos poder de decisão e de mudança, mas, infelizmente, somos apenas peças nas engrenagens desta grande máquina, executamos invariavelmente regras e procedimentos padrões.
Educar não deixa de ser um ato político. Dizer ou propor algo que não pode ser posto em prática, apenas com o intuito de obter um benefício ou alguns votos já é outra história.
                                                       

Um abraço
                                                  
*Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) é um exame amostral, realizado a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O objetivo principal do programa é fornecer aos países participantes indicadores que possam ser comparados internacionalmente, de modo a subsidiar políticas de melhoria da educação. 




sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Mito de Sísifo

Sísifo, por ter desobedecido às leis dos deuses, recebeu um castigo terrível. Todos os dias, ele deveria repetir a mesma tarefa: carregar uma pedra enorme e empurrá-la até o topo da montanha. A pedra caía na encosta abaixo e voltava. E assim, ele tinha que empurrá-la novamente. Um trabalho interminável.
E o nosso trabalho, como professor, não se assemelha com o de Sísifo?
Todos os dias tentando ensinar algo de valor aos alunos, mas quem se importa com o que você fala? Você precisa chamar a atenção dos alunos a todo instante, separar suas brigas, pedir silêncio, gritar para ser ouvido, implorar para eles fazerem a lição. E quando eles estão quietos, não prestam atenção ao que você diz.
Toda aula, sua paciência, tolerância e controle são testados. Você fica exaltado, nervoso, grita, tem vontade de correr e ir embora. Mas no outro dia, você precisa carregar a pedra novamente. E no outro também, no outro, etc.
Carregar a pedra da Educação e empurrá-la todos os dias é um trabalho incansável.  Para ser professor é necessário muito mais que amor à profissão, é necessário coragem, paciência, persistência, dedicação.
A todos os professores, parabéns por seu dia. Todos vocês são bravos e guerreiros, que lutam sem trégua nesse trabalho sem fim.

            Um abraço

sábado, 25 de setembro de 2010

Partida de xadrez

           Nós, professores, participamos de uma partida com a maioria dos lances já decidida.  As autoridades de Ensino definem as regras do jogo e as estratégias para ganhá-lo.
Como numa partida de xadrez, elas não mostram seus planos logo de início e cada jogada é calculada e importante na conquista de território e poder.
Desde os primeiros movimentos, visando benefícios individualistas e ganhos futuros, "provocam" o debilitamento de nossa defesa com ameaças indiretas, às vezes por imprudência, outras por não pensar nas consequências a longo prazo. 
Neste jogo, nós somos meros peões, soldados na frente da batalha e nossos destinos são determinados por esses interesses, pouco importando se com isso nossas vidas serão mexidas e reviradas pelo avesso.  
Nossos passos são demarcados, somos pressionados e atacados como forma de diminuir nossa força. Programados para acatar e seguir as ordens, seremos aos poucos engolidos pelo sistema. De mãos atadas, sem poder de intervenção.
O que devemos fazer para reverter esta situação?
Não devemos perder esta oportunidade para lutar por várias razões: Primeiro: reunir nossas forças e agir em conjunto, cada um se apoiando no outro, pois só assim conseguiremos resultados significativos. Segundo: Não vamos recuar nem nos retirar do jogo. Não deixaremos nos intimidar pelo ataque do adversário. Terceiro: Devemos defender o nosso espaço com unhas e dentes. Não podemos admitir que decidam as nossas vidas de maneira tão leviana.
Esta é a melhor estratégia de se jogar porque se não arriscarmos nada, não conseguiremos obter nem, no pior dos casos, um empate.

             Um abraço
                                          

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Os Dozes Passos dos Professores Anônimos

Algumas vezes (ou muitas vezes), nós, professores, perdemos o controle sobre nossas emoções e ações quando estamos em sala de aula. A nossa paciência e tolerância (já no limite) se esgotam e temos vontade de xingar, bater, socar, esganar o primeiro que nos tira do sério. 
Para resolver essa situação, existe um Programa de Recuperação de Professores Anônimos constituído de Doze Passos* ou atividades pessoais. Estes "passos" incluem a admissão de que existe um problema, a busca de ajuda, autoavaliação, reparação de danos causados e o controle emocional.
Antes de agirmos de maneira impulsiva e agressiva, lembremos de seguir os doze passos:
1.      Em primeiro lugar, admitimos que somos impotentes perante a indisciplina escolar  e que perdemos o domínio sobre nossa sala de aula.
2.     Viemos a acreditar que somente um Poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade visto que o poder do Revotril, Fluxotina e Lexotan não estão mais resolvendo.
3.     Decidimos entregar nossa sala aos cuidados de Deus ou na ausência Dele, do Agente Escolar, do Coordenador Pedagógico, do Diretor, dos Guardas Metropolitanos ou de quem conseguir controlá-la.
4.     Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos na hora da raiva, do desespero e da angústia.
5.     Admitimos perante nós mesmos e perante o Coordenador Pedagógico, Diretor, Supervisor a natureza exata de nossas falhas, de nossa incompetência no planejamento de nossas aulas.
6.     Prontificamo-nos inteiramente a manter distância segura de todos esses objetos (apagador, giz, caneta, objetos cortantes e pontiagudos) no momento da raiva e do desespero a fim de não lançá-lo como arma.
7.     Humildemente rogamos a Ele que nos livre de nossas imperfeições e nos dê paciência, tolerância, persistência, calma e serenidade em todas as horas de tensão e angústia e, principalmente, nas duas aulas seguidas com a mesma turma.
8.    Pensemos diariamente nas consequências desastrosas de nossas ações impulsivas e agressivas antes de cometê-las, pois elas serão prejudiciais à nossa carreira e à nossa vida pessoal.
9.     Lembremos sempre e, principalmente, nos momentos de estresse, do motivo pelo qual ainda persistimos nesta bendita profissão: o pagamento das contas do mês, o dinheiro da prestação da casa, um carro novo, a viagem do final do ano, a escola dos filhos.
10.   Procuramos através da prece e da meditação, melhorar nosso contato com os alunos, ignorando suas provocações, pedindo forças para resistir à tentação de avançar em seus pescoços.
11.    Tenhamos firme a nossa decisão de controle e autodisciplina e reforcemo-la permanentemente. Sentiremos os benefícios da mudança aula após aula, dia a dia, ano após ano.
12.   Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuremos praticar estes princípios em todas as nossas aulas até o momento de nossa abençoada aposentadoria.
O grupo de Professores Anônimos não oferece tratamento e é um movimento de ajuda mútua, inspirado ou orientado para o programa de recuperação daqueles que sofrem do mesmo mal.
                                                                                    
Um abraço
*Adaptação dos Dozes Passos dos AA